BioCidades
- Fabião Nunes
- agosto 19, 2020
- 3:57 pm
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Nunca imaginamos que um organismo acelular, um vírus, chamado por alguns cientistas de “entidade”, provocaria tamanha transformação na dinâmica da vida entre todos os outros seres que coabitam a Terra.
Nas aulas de biologia, aprendemos que todos os vírus são parasitas obrigatórios, ou seja, dependem de seus hospedeiros para viver e se multiplicar. Alguns “parentes” do SarsCov-2 (que provoca a Covid-19) estão circulando entre nós há tempos.
Muitas viroses já provocaram mortes e caos na saúde pública antes, como o HIV (AIDS), o Influenza (gripe), H1N1, SARS, Ebola, Dengue, Hepatite, Varíola e por aí vai. A lista é grande, mas algo como essa pandemia, jamais ocorreu.
Alguns futurólogos e escritores de ficção científica passearam no imaginário coletivo com suas fantásticas histórias sobre o amanhã, mas não chegaram nem perto de supor o que viveríamos em 2020. Lembro das primeiras notícias, ainda no início de março (filtrando as fake news do ciberespaço) e só ficava imaginando o que viria. Amigos perguntavam-me se devíamos correr aos supermercados para abastecer nossos lares com suprimentos para resistir ao caos que se anunciava. Muitos apostaram na barbárie, não a que já existia, mas uma onda de violência estilo os filmes “B” sobre zumbis.
Nosso pontinho azul celestial tem 4,5 bilhões de anos. A vida começou nele há 3,7 bilhões. Assim, rememoro essas estimativas para pensarmos nos últimos 200 anos, sim, um período de domínio do Homo sapiens, ou como diz Edgar Morin, “Homo demens“, numa de suas muitas provocações necessárias.
Para chamar a atenção de todos, os cientistas criaram o termo “antropoceno”. Calma. Se você ainda não ouviu falar, é porque é algo bem novo e um ótimo gancho para atividades de Educação Ambiental e, sobretudo, para fazer todo mundo pensar.
Esse período, o “antropoceno”, inicia-se no fim do século XVIII, quando as atividades humanas começaram a ter intenso impacto global, alterando o clima e o funcionamento dos ecossistemas.
Não à toa os pensadores catastrofistas enxergam os seres humanos como células oncogênicas de GAIA.
Seriamos o “câncer” do planeta!?
Recuso-me a pensar assim. Não por ser um otimista e utopista nato, mas por entender que, nesse conjunto de 7,8 bilhões de seres humanos, muitos de nós têm um pensamento holístico e sistêmico. Há pessoas preocupadas com o próximo, solidárias, antenadas e atentas aos desafios das mudanças de conduta. Há também pesquisadores que dedicam suas vidas para minimizar os impactos nocivos às outras formas de vida, que abriram mão de luxo e prazeres desmedidos por uma sintonia com as convicções do mercado ético, consumo consciente e produção limpa.
Enfim, há muita gente que leva uma vida simples!
Traço todo esse preâmbulo para contemplarmos e refletirmos sobre algumas novas cenas registradas pelas câmeras dos smartphones nas cidades do mundo inteiro, compartilhadas nas redes sociais. Imagens que provocaram emoções e criaram esperança em tempos de isolamento social e reclusão de convívio.
Num dos vídeos mais partilhados recentemente, um grupo de golfinhos nada eufórico nas águas do canal do estuário que abriga o maior porto da América Latina, entre as cidades de Santos, Guarujá e Cubatão, uma região fortemente antropizada, poluída e populosa.
Aquele filme, cheio de sons dos suspiros das pessoas que estavam filmando, despertou surpresa e esperança. Foi uma breve pausa da presença do Homem no ambiente que diminuiu o afugentamento e o risco de vida às espécies silvestres que buscam refúgio nas áreas isoladas, como reservas e parques de preservação.
Essa percepção é, para nós ambientalistas, um legado desse momento crítico e de fragilidade da saúde ambiental do planeta. Os desafios são gigantescos, mas as alternativas para superarmos essa crise global está nos corações e mentes das pessoas.
Não vejo a hora de paulatinamente recuperarmos a vida sem máscaras e com novos protocolos de higiene incorporados em nossas rotinas. Que a vida online potencialize a difusão do conhecimento de novas ideias e tecnologias para criarmos uma rede de novas cidades.
Locais onde prospere a eco cidadania, respeito às diferenças, potencialização da vegetação urbana, moradias dignas, mutirões de cuidados com os espaços coletivos da urbe, tratamento adequado aos resíduos, energia solar e eólica, arte por toda parte, uso racional da água, transporte coletivo de qualidade, escolas abertas tornando-se centros de saber e convívio social, sem preconceitos e como oportunidades para todos.
Quiçá, BioCidades… E que assim seja!
@Fabião Nunes
É biólogo e professor.
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